19 de out de 2010

Da Série Librianos Ilustres, Garrincha...


Garrincha,assim na terra como no céu,fez aniversário ontem... Crônica de Nelson Rodrigues em homenagem ao anjo das pernas tortas. Aqui na voz de outro aniversariante da semana,nuestro dom Paulo Cesar Campos Viejo, El Peréio.





5 de out de 2010

COMO ELIMINAR UM AMANTE


O leitor aflito me escreve. Quer ajuda, conselhos, alguma filosofia de consolação, ombro, ouvidos... Qualquer adjutório serve. Uma alma penada. Ainda mais no apagar das luzes do ano velho, quando a vida veste os seus bicos e babados mais bregas e sentimentalóides.


Havia aposentado a Miss Corações Solitários que acode as vítimas dos infortúnios e tsunamis do amor. Diante do apelo do amigo, não há como deixá-lo a mascar o jiló do abandono neste “já vai tarde” de 2006.


Está desconsolado, como o Sizenando de Rubem Braga, que viu a amada cair nos braços de um playboy. Um idiota que não sabia sequer uma palavra de esperanto.


A vida é triste, Sizenando, como soprou-lhe o cronista.


Com Amaro, chamemos assim o nosso ensaio de Bentinho, não foi diferente.


Quis o destino parafusar-lhe objetos pontiagudos à testa.


Sim, ela tem um amante. Daqueles amantes que se encontram à tarde, num intervalo qualquer, no recreio da vida chata.


Nem foi preciso contratar o detive particular, conta-me o nosso Amaro. Ele mesmo fez as vezes de cão farejador de sua própria desgraça.


Que fazer?, indaga, num email no qual até a arroba bóia em poças de lágrimas.

Mato o desgraçado?


Tiro a vida da desalmada?

Vou-me embora pra Tegucigalpa?

Salto mortal da ponte Buarque de Macedo?


Um trágico, esse rapaz. Como os de antigamente. Amaro é do tempo em que os homens coravam. Ainda tenho vergonha na cara, envaidece-se o próprio.


Sossega, Amaro.


O melhor que fazes, respondi ao marido em fúria, é sumir por uns dias, inventar uma viagem, e dar todo tempo do mundo ao infeliz desse amante.


Banalizar o amante, meu caro e bom Amaro.


Entendeste?


Deixar que eles durmam e acordem juntos. Que tenham seus problemas, que percam o luxo dos encontros fortuitos e vespertinos.


É necessário deixar a Bovary sentir o bafo matinal da rotina.


A vida dos amantes dura porque eles só vivem as surpresas e valorizam cada minuto do relógio que põem sobre a cabeceira daquele motel barato.


Nada mais cruel para o amante da tua mulher que presenteá-lo com o pão-com-manteiga do dia-a-dia. A rotina é o cavalo de tróia do amor.


Amaro, nada de violência ou besteiras desse naipe.

Ao amante, todas as chances do mundo. Ao amante aquela D.R., a famosa discussão de relação, em plena TPM.


Um amante nunca sabe o que venha ser uma mulher sob o domínio da TPM. Ela faz questão de reservar todos os direitos desse ciclo ao pobre marido.


Ao amante, Amaro, a tapioca fria e sem recheio da rotina do calendário.


Ao amante, Amaro, a falta de assunto.


Ao amante, os cabelos revoltos da mulher, naqueles dias em que nem mesmo ela se agüenta ou encara o espelho. Naqueles dias em que os cabelos brigam com as leis do cosmo e não há pente ou diabo que dê jeito.


Some, Amaro, depois me conta.