29 de set de 2010

O CAFAJESTE E DAS SUAS CARICATURAS


O cafajeste ou é sexy ou é risível. Não há outra saída para este animal, bem soube fazê-lo o velho e bom Ruy Guerra. Ou tem a manha ou torna-se caricato na primeira piscadela. Ou é Paulo Cesar Pereio ou apenas um ensaio de Didi Mocó Sonrisal. Didi é gênio, ora, mas é macaco de outro galho.


O cafajeste amador é uma piada. Quer comer todas as gostosas e a nenhuma se devota. Blefe. Não sabe, nem nunca procurou saber, que no amor e no sexo, não existe mensalão nem milagre. O cafa à vera não é nada óbvio.


Sabe, inclusive, que nem só de gostosas vive o homem. É capaz de devotar-se àquela mulher que ninguém dá nada por ela. E de repente descobre que trata-se de uma foda sem precedentes, um vulcão nunca dantes despertado para as artes da alcova.


Para o cafa de verdade, não há feiúra muito menos boniteza.


O cafa amador parece vestir-se sob encomenda de uma figurinista. Camisa aberta, corrente, malandragem-fake, essas coisas. E sempre um pé no metrossexualismo ou na tendência.


No cafa sexy, qualquer peça lhe cai bem, pois a ciência da sua pegada está no olho e no drinque caubói, claro.


O cafajeste sexy entra no saloon e não atira para todo lado. Não gasta balas à toa. Sempre escolhe um alvo.


O caricato e amador gasta as balas do colt até com as mulheres dos amigos, embora não tenha arma para matar sequer uma formiga.


O falso cafa é “garganta”.

Comendo ou não comendo, diz que comeu e espalha a lenda. Seu caminhãozinho não perde a viagem... Mas areia que é bom de verdade...


O cafajeste sexy é discreto.


Acredita sobretudo, e caso a caso, na arte da conquista, na devoção pura e simples. Nem que seja por uma noite apenas e nada mais. Diante dele, toda mulher se sente uma deusa,uma Vênus.


O canalha amador faz falsas promessas. O cafa sexy, predador evoluído, sabe que a fêmea moderna pode muito bem estar querendo _estarei gozando, como diria uma profissa do telemarketing!!!_ apenas foder.


O cafa caricato se acha. O cafa sexy sabe que hoje está por cima e amanha pode muito bem estar por baixo _mas que seja, pelo menos, de uma bela buceta, claro.


No catecismo do cafa sexy, não há nojinhos nem proibições. O amador é asséptico e limpinho.


O cafa sexy enfrenta e atravessa lindamente os mares vermelhos da menstruação da fêmea com vigor.


Quando enfia os dedos numa buceta, o cs _cafa-sexy_ passa o dia sem lavar as mãos. Para ficar lembrando ali o tempo todo. Ta numa reunião de trabalho, mas sempre com os dedos a tocar levemente a napa; ta na fila, e os dedos a tocar a napa; ta na missa e não pára de fazer o sinal da cruz...


Melhor ainda: o cafa sexy quando se arrisca na cozinha é mestre em comidas sem nenhum requinte e com muita pimenta e alho. Haja alho. Aí, como na receita no meu amigo Joca Reiners Terron, passa o dia com a mão direita cheirando a buceta e a esquerda cheirando a alho.


São realmente os dois melhores cheiros que um homem pode usufruir na face da terra.


O cafa sexy, senhores, se pudesse, voltava para o útero por dentro da buceta da mulher mais linda da cidade, como na crônica do amor louco de Bukowsky.


O amador se contenta, muitas vezes, com uma foda virtual no Messenger. Sem cheiros, sem odores, nada visceral.


Ele ainda não sabe que para curar um amor platônico é preciso uma bela trepada homérica.



vai Peréio...


26 de set de 2010

24 de set de 2010

DE UM SAMBA DE UM GRANDE AMOR, MENTIRA


“Tinha cá pra mim que agora sim, eu vivia enfim o grande amor, mentira!”

Encontro minha amiga A., no nosso botequim predileto, e a desalmada vai logo anunciando, com a ironia fina que a acompanha na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença.

Sempre tem boas histórias e uma mania louca de escolher uma música, normalmente Chico Buarque, para trilha das sagas românticas.

Como Chico tem um vasto elenco de personagens femininos e incorpora as dores e delícias das mulheres, ela escolhe no capricho, no ponto. Moleza, garoto.

“Tinha cá pra mim que agora sim, eu vivia enfim o grande amor, mentira!”, ela repete e repete, enche o saco com o “Samba do grande amor”.

Essa música nem é protagonizada por uma fêmea, e sim por um homem desiludido, um cabra cujo destino parafusou-lhe na testa belos objetos pontiagudos, como diria o compay Marçal Aquino.

Mas ela insiste e canta assim mesmo. Pior: canta e ri, uma loucura. Que diabo de sofrimento é esse com essas gargalhadas todas?

A moça é assim mesmo. Não tem jeito. E olhe que nem pediu caipiroscas de frutas vermelhas nesse dia, ficou apenas no chope, coisa fina e civilizada.

“Morrer dessa vez é que não vou”, tira onda. “Ih, estou escaldada, velho Francisco”.

O que A. me contou uma das coisas banais que mais escuto das minhas amigas nos últimos tempos. E olhe que sou conselheiro, ombudsman das moças, cupido e ouvidor-geral de muitas crias das nossas costelas.

“Sua carteira de desesperadas é grande”, ela mesma tira uma boa onda sobre um ofício que desenvolvo com gosto e curiosidade desde os verdes anos –quando sequer eu sabia o era uma mulher para valer, conhecia apenas as cabritas e as bananeiras.

A amiga deparou-se com mais um desses homens que prometem, ensaiam, jogam um charme, cultivam, cantam de galo... comparecem e..., sem dizer nada, tomam o clássico chá de sumiço.

“Por essas e por outras é que agora prefiro um bom canalha a um homem frouxo”, prega a amiga, conquistando rapidinho o apoio da mesa feminina ao lado. “Um canalha pelo menos me pega com gosto e temos noites deliciosas”.

Defende a tese e emenda, riso desavergonhado: “Passava um verão a água e pão, dava o meu quinhão pro grande amor, mentira!”

É rapazes, é tempo de homem frouxo, que corre mesmo diante da possibilidade de uma história mais densa e afetiva. Não sabem o que estão perdendo. A começar pela minha amiga cantante, belo exemplar da raça, no auge dos seus 3 ponto 6, boa conversa, boa lábia, gostosa, bocão-Jolie e um humor capaz de tornar o mais nublado dos dias no dia mais alegre e comovente para o cara que estiver ao seu lado.

Sorte desse homem!



*e seguindo no balanço, a Radio Xico Sá apresenta Milt Jackson:





22 de set de 2010

COMO SE ESCREVESSE UMA CARTA DE AMOR NUM EDIFÍCIO EM CHAMAS



Primeiro exercício:



...como na lição do velho Jota Cheever, amigo platônico incrível, mas sem exercícios de estilo [ou perobices de gênio], ora, carai, aqui vale a cremação e os degraus do desespero, aqui vale a escada inútil, aqui vale o fogo nas vestais, nas vagabas e na mulher-abismo, como se escrevesse com sangue e gasolina o próprio incêndio, e ainda sobrasse fogo para o isqueiro do idílio, o último cigarro, o último gole, o último suspiro de Caryl Chessman, como se escrevesse uma carta de amor expressionista, depois daquela festa, uma missiva certeira, como um tiro de marido traído, uma escrita-réptil, sem deixar rabos, uma carta ridícula, brega, como todas as outras, selada ao cuspe da derradeira punheta, a carta ali, no lambuzo da munheca, longe do alcance da maldita, na febre do rato, na peste bubônica, na urgência de quem extrai uma bala, alojada no osso de um crânio cuidado frágil.




Segunda tentativa:

Agora escrevo com o próprio sangue dela, o dedo indicador no tinteiro da buceta,

molho o dedo tantas vezes possa, opulência, menstruança, rio vermelho sob lua cheia...

o mesmo dedo que agora é lapiseira [a parede branca assimila a prosa] pequenos veios escorrem lá nas pernas,

e do cuzinho também jorra,

o mar dos nossos problemas,

o gozo desce no taco, lambo tudo junto com as formigas diabéticas.





Terceiro tiro:

Como se escrevesse uma carta de amor, num jato em chamas e piruetas, rabiscando o próprio incêndio, entre ninfas analfabetas, uma carta bem sucinta, assonante, corizada, como quem chora todas as perdas. Uma rasura em árabe, pelamor mais terrorista, na borra de café eu vi, vou me fuder, vou me fuder, não há mais tempo, vou me fuder, antes de enviar essa missiva.


arremata aí, Ian Curtis...