16 de dez de 2010

O HOMEM DOMINADO.


O homem dominado é um tipo clássico. Anda, porém, meio esquecido por todos. Talvez o distinto cavalheiro tenha perdido a importância diante da nova fêmea que manda no mundo. O domínio dela não é mais novidade alguma, nem nos lares e muito menos nas repartições – o que obscurece um tanto a figura desse orgulhoso e assumido pau-mandado.


Sim, o dominado, meu camarada, é bem diferente do corno manso ou conformado, para usar uma terminologia cara ao heróico Waldick Soriano. Os dois guardam uma distância regulamentar respeitável, embora ambos façam parte do mesmo folclore das relações.


Um vídeoclipe que virou hit na internet, com a música “Minha Mulher Não Deixa Não”, recuperou nos últimos dias o sentido trágico e cômico da tal criatura dominada pela digníssima e irredutível esposa. Eis o motivo para tirar a espécie do seu anacronismo e devolvê-lo à pororoca da vida.


Gravada originalmente pelo grupo Aviões do Forró, o chamegável breguinha faz sucesso agora na versão (remix) do DJ Sandro, conhecido como “o moral do Paulista” na cidade vizinha do Recife. No vídeo, com mais de um milhão de acessos no YouTube, dois amigos tentam convencer outra dupla a fazer uma farra, pegar umas raparigas, tomar uns gorós com sopa de cabeça de galo, entre outras extravagâncias.


No que o Dominado 1 e o Dominado 2, como são creditados no final do clipe, respondem: “Vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa não”. A coreografia tem tudo para virar a dancinha fuleira do próximo veraneio. Cafuçu style é isso aí!


O homem sob o domínio e, eventualmente, sujeito ao pau-de-macarrão na caixola, sempre foi visto como antes de tudo um frouxo. Sem perdão ou condescendência dos outros marmanjos. Motivo de muita chacota. Nem o corno manso, o seu primo-irmão de folclore, é tão perseguido.


Discordo dessa onda. Confesso que vejo até uma certa beleza na obediência do bofe. Um rigor na entrega, afinal de contas, amor é disciplina, como me sopra aqui a formosura chamada Lygia Fagundes Teles.


Ora, deixem o dominado em paz no seu feitio de oração, no seu ajoelhamento diário no milho do amor e da sorte. O dominado é um devoto que sente prazer em sacrificar seus próprios desejos mundanos. Tudo em nome da sua mulherzinha, cria bíblica da sua costela.


A situação me lembra, opa, outra música, essa sim um clássico de Luiz Gonzaga: “Vai boiadeiro que a tarde já vem/Leva o teu gado e vai pensando no teu bem(…)/E quando eu chego na cancela da morada/Minha Rosinha vem correndo me abraçar/É pequenina é miudinha é quase nada/ Mas não tem outra mais bonita no lugar”.


Eis a delicadeza de obedecer. Se bem que no caso do vaqueiro de Gonzaga, o demônio era mais abstrato, oculto, não estava personificado, em carne e osso, como os colegas tentadores do DJ Sandro.


O cidadão dominado, porém, é mesmo um forte. Resiste às tentações com louvor de um cristão ortodoxo. Eu admiro e bato palmas.



& Modinhas de fêmea


“Há uma mulher. Sente por mim o que eu sinto por ela, me odeia, me ama. Quando ela me odeia eu a amo, quando ela me ama, eu a odeio. Não existe outra possibilidade.”

(Do livraço “Uma Mulher “, ed.Cosacnaify), do húngaro Péter Esterházy. Recomendo.


3 comentários:

Milla disse...

Simplesmente fantástico. Xico Sá é quase um manual sobre todas as coisas e tenho dito!

ps. Aqui em Recife a dancinha do clipe de "DJ Sandro o moral de Paulista" já virou moda, até nas rodas alternativas da cidade.

Bruna Assagra disse...

rs... ai ai ai... Tem seu valor, tem seu valor...

Quincy disse...

This is great!